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No ano em que a Associação Brasileira de Ensino de Biologia (SBEnBio) completa três décadas de existência, o Ensino de Ciências e Biologia no Brasil consolida sua fertilidade na produção de conhecimentos e na proposição de futuros para a intervenção político-pedagógica e a formação das professoras e professores dessas disciplinas escolares. Uma fertilidade assim tem sido possível pela parceria da SBEnBio junto a diferentes instâncias acadêmicas (coletivos, grupos de pesquisa, programas de pós-graduação, associações científicas) e por seu caráter tensionador e propositivo em diferentes políticas e programas que contribuíram para ampliar as fronteiras teórico-metodológicas da área.

 

Os Estudos Culturais têm ocupado lugar privilegiado em tal consolidação, como perspectiva teórico-política comprometida com análises e intervenções críticas das práticas de significação que atravessam a vida social. Distanciando-se de concepções essencialistas, hierarquizantes ou universalizantes de cultura, os Estudos Culturais voltam sua atenção para processos nos quais saberes, valores, subjetividades, identidades e modos de vida são produzidos, legitimados, contestados, disputados e transformados. Interessa-lhes compreender como relações de poder operam na constituição de conhecimentos, sujeitos e realidades, bem como investigar os modos pelos quais diferentes artefatos culturais participam da fabricação de inteligibilidades, sensibilidades, imaginários e formas de habitar o mundo.

 

Se o Ensino de Ciências e Biologia tem se constituído como espaço estratégico para compreender relações entre conhecimento, cultura, linguagem, sujeitos e transformação social, é também graças aos Estudos Culturais, que têm ajudado a notar, lembrar que ciência também é produção cultural e diferentes artefatos e práticas culturais também ensinam dentro e fora das escolas (e por vezes disputam nossos sonhos mais dourados do ensino-aprendizagem). Pesquisas e práticas educativas no Ensino de Ciências e Biologia, quando em articulação com os Estudos Culturais, têm oferecido abordagens capazes de problematizar e desestabilizar alguns dos desafios contemporâneos que nos afetam não só no âmbito escolar. e também nos inspiram debater sobre artefatos, práticas e políticas culturais em torno da natureza, corpo, saúde, sustentabilidade, tecnociência, crise e justiça climática, difusão de desinformações científicas, disputas nos sentidos públicos das ciências, tensionamentos didáticos e subjetivos decorrentes das plataformas digitais e da IA…para tensionar significados, noções (de normalidade, desenvolvimento, risco, progresso e futuro, etc.), regimes de verdade e os desdobramentos disso tudo em processos de inclusão e exclusão.

 

Toda essa aproximação entre Estudos Culturais e Ensino de Ciências e Biologia tem provocado deslocamentos importantes nas formas de pensar a educação científica contemporânea. Deslocamentos que o presente dossiê pretende dar visibilidade e amplificar, reunindo contribuições que explorem as potencialidades analíticas, metodológicas e políticas dos Estudos Culturais para o Ensino de Ciências e Biologia. Assim, convidamos professoras e professores da educação básica e superior, estudantes de pós-graduação e demais pesquisadoras e pesquisadores a submeter artigos teóricos, ensaios, relatos de experiência, pesquisas empíricas e experimentações metodológicas que incitem leituras críticas e inventivas sobre os modos pelos quais temos narrado, imaginado, aprendido e ensinado a ciência, a natureza, os corpos e os futuros comuns nesse mundo marcado por tantas e profundas transformações nas múltiplas instâncias em que a educação científica acontece.

 

Organização:

Sílvia Nogueira Chaves (UFPA), Marlécio Cunha (UFRN), Terezinha Valim Oliver Gonçalves (UFPA) e Rodrigo Cerqueira do Nascimento Borba (USP)