Topopatia, animalidade e vegetalidade em O falador, de Mario Vargas Llosa, e em Cenas da vida minúscula, de Moacyr Scliar/Topopathy, Animality, and Vegetality in The Storyteller by Mario Vargas Llosa and Sce-nes from a Minuscule Life by Moacyr Scliar
Resumo
Este estudo propõe uma leitura comparativa de O falador (1988), de Mario Vargas Llosa, e Cenas da vida minúscula (1991), de Moacyr Scliar, orientando-se pela noção de topopatia, que permite analisar como, em cada romance, o contato com a terra leva os personagens a reencontrarem a animalidade e a vegetalidade no espaço amazônico. Em ambas as narrativas, dois personagens com ascendência judaica deslocam-se para a Amazônia, onde vivem experiências sentimentais e místicas. Mascarita, em O falador, e Habacuc, em Cenas da vida minúscula, constituem o foco deste trabalho, assim como a relação que mantêm com os espaços descritos nas obras. A análise se apoia na definição de topopatia de Ozíris Borges Filho (2007), nos estudos da Ecocrítica, apresentados por Greg Garrard (2006), que investigam as imbricações entre literatura e meio ambiente. O estudo também dialoga com os conceitos de topofobia, relação negativa do ser humano com o espaço, conforme Edward C. Relph (1979), e topofilia, laços afetivos com o ambiente, proposto por Yi-Fu Tuan (1980). Por fim, para compreender os deslocamentos dos personagens representados nos textos literários, recorremos a conceitos das mobilidades migratórias transculturais de Zilá Bernd (2010). O enfoque do espaço na análise desses textos, sob uma perspectiva comparatista e interdisciplinar, permite conhecer como a floresta amazônica tornou-se um lócus de acontecimentos emocionalmente fortes para os personagens, Mascarita e Habacuc.
This article presents a comparative analysis of The Storyteller (1988), by Mario Vargas Llosa, and Scenes from a Minuscule Life (1991), by Moacyr Scliar, grounded in the concept of topopathy. The study examines how contact with the land enables the protagonists to reengage with animality and vegetality within the Amazonian space. In both narratives, characters of Jewish descent migrate to the Amazon, where they undergo emotionally and spiritually significant experiences. The analysis focuses on Mascarita and Habacuc and on the relationships they establish with the spaces depicted in the novels. The theoretical framework draws on Ozíris Borges Filho’s (2007) formulation of topopathy, ecocritical approaches articulated by Greg Garrard (2006), and the concepts of topophobia (Relph, 1979) and topophilia (Tuan, 1980). In addition, the study incorporates Zilá Bernd’s (2010) notion of transcultural migratory mobilities to address the characters’ spatial displacements. From a comparatist and interdisciplinary perspective, the article argues that the Amazon rainforest functions as a locus of intense affective and symbolic experiences, reshaping the protagonists’ relationships with space, identity, and belonging.
Palavras-chave
O falador; Cenas da vida minúscula; Mario Vargas Llosa; Moacyr Scliar; topopatia.
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PDFReferências
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