MOARA – Revista Eletrônica do Programa de Pós-Graduação em Letras ISSN: 0104-0944

Outras temporalidades para a literatura do Rio Grande do Sul: a obra de Vãngri Kaingang

Pedro Mandagará

Resumo

O presente artigo propõe uma discussão sobre a invisibilização da presença e da produção cultural indígena no Rio Grande do Sul, contrastando o mito fundacional do estado, que se apoia em uma representação sacrificial do indígena na literatura canônica (como em O Uraguai e O continente), com o surgimento de uma autoria indígena contemporânea. Argumenta-se que a literatura sul-rio-grandense historicamente substituiu o indígena pelo gaúcho como protótipo local, relegando o indígena a um passado idealizado e morto, ou a termos pejorativos como "bugre". A primeira seção aborda a invisibilidade do indígena, tomando como metáfora a obra de China Miéville, e discutindo a situação dos Kaingang e Guarani-Mbyá na capital, Porto Alegre, e no estado. A segunda seção se concentra no povo Kaingang, um dos mais numerosos do RS, e na obra de Vãngri Kaingang, autora considerada a primeira indígena a publicar individualmente no estado. Analisamos o livro Jóty, o tamanduá (2010), uma narrativa de origem que reitera o sistema de metades Kam? e Kanhru e explica a origem da festa dos mortos (kikikoi). Conclui-se que, ao retomar e reescrever narrativas ancestrais, Vãngri Kaingang propõe uma nova temporalidade para a literatura do Rio Grande do Sul. Esta nova literatura abandona o mito sacrificial, celebrando a vida e a continuidade da comunidade Kaingang através do canto e da dança, e afirmando uma história ancestral que se revela pela escrita, tal como o ressurgimento do tamanduá-bandeira (Joty) no território gaúcho.


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DOI: http://dx.doi.org/10.18542/moara.v0i72.21361